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sobre gigantes, brigadeiro gourmet, anão diplomático e aécioporto

2014/07/25

o gigante acordou e abriu o facebook. diante da tela, uma foto de sininho na timeline com a legenda: ativistas deixam presídio de bangu no RJ após pedido de habeas corpus.
“malditos petralhas”, pensa. 3 posts abaixo mais uma notícia que o deixa hashtag chatiado: o ministerio das relações exteriores de israel afirma que brasil é anão diplomático. o gigante não se conforma com a injúria, coloca a mão direita no peito e cantarola “eu sou brasileiro com muito orguuuuuulho com muito amoooooor”. saudades, copa.
um link compartilhado por um velho amigo chef do pais 6 chama sua atenção.
“Jamie Oliver sobre brigadeiro e quindim: ‘É um bando de porcaria'”
ele acha que o chef gringo tem razão. brigadeiro é uma receita muito barata pra ser boa. bom mesmo é brigadeiro artesanal de ossobuco com banha de ornitorrinco.

o gigante sempre responde uma pergunta com outra. nunca tem um bom argumento ou embasamento genuíno para contrapor a opinião dos outros.
não gosta de discutir política porque acha que a culpa é sempre das estrelas escarlates.
odeia dilma, vai votar em aécio pra tirar o PT do governo e não sabe quem é eduardo campos. luciana genro, quem?
não acredita na história do aécioporto e acha que notícia é boato de petralha.
“nunca leu ‘assassinato de reputações’*, não?” – pergunta no twitter a um arroba que questiona sua opinião. [*livro do filho de romeu tuma, aquele ex diretor do DOPS que ocultava corpos de militantes mortos durante a ditadura].

the giant-guarani-kaiowa-vidigal-favela-chic partidariza o bom senso e ideologias humanistas.
para ele, todos que são contra a repressão policial, a criminalização de protesto, a perseguição política com ativistas de esquerda e a violação dos direitos humanos não passam de petralhas imbecis comunistas lulistas cubanos mais médicos bolsa familias chavistas VÃO PRA CUBA BANDO DE PETRALHA.
mas o gigante, apesar de parecer um pouco carrancudo, sem paciência para discussões com tropicalistas subversivos, é um espiritual homem de bem.
frequenta a igreja todo domingo de manhã para ouvir ensinamentos
de um cabeludo socialista, baluarte dos direitos humanos que teve os pés ungidos por uma prostituta e comia com os pobres.
o gigante é contra o aborto porque contradiz os princípios cristãos do valor
da vida. mas é a favor da pena capital. “bandido bom é bandido esquartejado, empalado, esfolado, degolado. mortinho”.
participaria de um linchamento ao adolescente que furtou um celular do bolso alheio. “bala nele!”.

“morre ariano suassuna”. ele clica desesperado na foto do homem com raros cabelos brancos na cabeça. a linha fina da matéria do G1 não responde a pergunta que cutuca seu cérebro: “quem é suassuna?”
a seguinte enquete lhe vem a mente.

ariano suassuna foi:

( ) um político brasileiro [tem cara de comunista!!!]
( ) um escritor brasileiro nascido na colômbia
( ) um passageiro do MH17
( ) todas as alternativas

mas sei la, né, ao que tudo indica, ‪#‎vaitertomorrowland‬.
vocês viram que caiu outro avião?

Precisamos falar sobre racismo

2012/11/25
Pra que esse tal de Dia da Consciência negra? O Morgan Freeman disse que nós devemos parar de falar sobre o racismo pra que ele desapareça…

 

Durante esses dias, pude ver algumas pessoas postando o vídeo do Morgan Freeman dizendo que o Mês da Consciência Negra é uma tremenda bobagem e que o racismo só vai realmente desaparecer quando as pessoas pararem de falar sobre ele, ou seja, os brancos pararem de chamar os negros de negros e os negros pararem de chamarem os brancos de brancos. Isso é verdade. O problema é como a maioria das pessoas interpretou o que ele disse.

VEJA O VÍDEO AQUI

Freeman está certo, as pessoas precisam parar de se distinguirem pela cor. Os nomes sevem pra isso, são elementos fundamentais da identidade. Chame alguém pelo nome, não pela cor. Ok. Mas o fato de a sociedade parar de criar mecanismos que relembrem a luta dos negros dentro de um contexto histórico que assolou toda a população negra no mundo todo e incentivar o debate sobre esse assunto que é tão evitado, mas tão latente na nossa sociedade, não vai fazer com que o preconceito seja vencido. Ora, parar de falar sobre comida não faz com que a fome desapareça.

Os próprios comentários do vídeo são um reflexo de que as pessoas não sabem lidar com o assunto. Ainda. Sem um mínimo de senso crítico, é fácil tomar a atitude nonsense de usar uma camiseta escrito “100% branco”. “Ué, o negro pode usar uma camiseta escrito “100% negro” e eu não posso usar uma mostrando que tenho orgulho da minha cor?” Não, cara. Você é descendente de escravos? Uma blitz policial te para só porque você é branco? Não. É isso que Freeman ataca. O pedantismo que muita gente adota ante os assuntos sociais controversos.

No entanto, essa utopia que Morgan Freeman propõe não cabe em uma sociedade como a nossa. As relações sociais, raciais e econômicas estão fortemente ligadas. Não tocar mais no assunto significará o enfraquecimento de séculos de luta contra a injustiça sofrida pelos nossos antepassados. Parar de falar sobre o racismo, de maneira crítica, é sustentar o sorriso amarelo que o negro recebe de um branco.

Ray falou sobre o racismo

Georgia On My Mind lembra que é preciso mais do que uma cara de mau pra derrotar o racismo.

Ray Charles cresceu em um ambiente de segregação racial muito forte. O fim da Guerra da Secessão, assim como a Lei Aurea no Brasil, significou o fim da escravidão, mas não o fim do racismo. Pobre, cego e negro, sofreu diversos tipos de preconceito durante a vida toda.
Nesse contexto, em 1961 se recusou a tocar para um um público segregado e fortemente preconceituoso em uma cidade no estado da Georgia, nos EUA. Por isso, foi então banido e proibido de se apresentar lá de novo.

Muita coisa mudou após a fama e o reconhecimento do cantor. 21 anos depois, em 1979, Ray Charles voltou a Georgia, seu estado natal, e apresentou a canção Georgia On My Mind na Assembleia Geral Estadual.
Um tempo depois, a Assembleia fez de Georgia On My Mind o hino estadual.

Um negro que um dia se levantou contra o racismo e fez com que essa música se tornasse um símbolo social.

Feliz Dia da Consciência Negra, sim. 🙂

A ‘desromantização’ do herói americano em Drive

2012/09/02

Gabriela Pincinato (Junho, 2012)

Diga a hora e o lugar e te dou 5 minutos. Aconteça o que acontecer nesse tempo, estou à sua disposição. Mas o que houver após esses 5 minutos, está por sua conta.”. Essa é a frase emblemática do personagem principal de Drive, filme lançado nos EUA no final de 2011. O protagonista sem nome, interpretado por um excelente Ryan Gosling, vive o homem charmosamente discreto que não precisa de muitas palavras para dizer alguma coisa. O driver, como é chamado o personagem, tem uma vida dupla: dublê de filmes de ação, além de mecânico nas horas vagas, e motorista de assaltantes das ruas de Los Angeles.

Aclamado com o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes 2011, o diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn (Trilogia Pusher) fez um filme denso e impecável, que está rendendo a ideia de uma suposta continuação. De acordo com o The Independent, a adaptação da segunda parte da história está na mira do cinema. O livro homônimo de John Sallis que inspirou o filme é retratado de maneira fiel na direção de Refn, que não poderia ter ecolhido melhor os personagens para a versão cinematográfica. O contraste e originalidade de uma garçonete, um dublê de filmes de ação e um presidiário em liberdade se destona com o ‘ideal elenco hollywoodiano’.

Com poucas falas durante o filme, o personagem interpretado por Gosling ganha a vida com o talento que possui para pilotar carros. Shannon (Bryan Cranston) é um tipo de agente do driver, que lhe arranja atuações em filmes como piloto-dublê, gerencia sua vida paralela de motorista de assaltantes durante a noite e o emprega também em uma oficina mecânica. Vendo o talento do rapaz, Shannon faz proposta a Bernie (Albert Brooks), um vigarista classudo, de patrocinar a montagem de um carro para que o driver corra nas pistas da Stock Car. No entanto, é nesse momento em que conhece Irene (Carey Mulligan), uma garçonete de lanchonete, e sua vida assume a direção na contramão.

Mãe do pequeno Benício (Kaden Leos), a delicada Irene é vizinha do driver, pelo qual reconhece a recíproca e acaba se apaixonando. Até então, sem nenhum contato físico, a química incrível entre os dois toma conta da esperança de qualquer um que assiste o filme: ‘Beije ela logo!’. Mas o romance hollywoodiano esperado se esvai quando Standart Gabriel (Oscar Isaac), marido de Irene, sai da prisão por bom comportamento e volta pra casa. No entanto, na tentativa de se afastar, o driver descobre que o ex-presidiário deve para criminosos que ameaçam a integridade de Irene e Benício e decide ajudá-lo. A partir daí, o envolvimento com pessoas perigosas lhe faz perder o controle e a trama se desenrola e desliza em características que remetem ao trabalho de Martin Scorsese, além de deslizar também em peculiaridades tarantinescas. A violência estampada nas cabeças estouradas por bazucas, facadas violentas e crânios esmagados diverge — ou completa maravilhosamente — a vida pacata e figura silenciosa do protagonista.

O lento ritmo de filme pode irritar muita gente, mas é essa a magia do longa. O efeito provocado no espectador não seria o mesmo se seguisse a linha dos filmes do Van Damme e do Vin Diesel, por exemplo. A sensação pulsante de conexão com a obra de Winding durante as quase 2 horas de filme é provocada por uma empatia emocional e psicológica que oscila na torcida pelo amor do driver e Irene, pelo bem estar dela e do filho e pela vida do personagem de Gosling.

Com uma ótima percepção, o diretor elegeu uma trilha sonora atmosférica fantástica, penetrante e única. Daquelas que se fundem com a obra, assumem a trama e entram pra parte da nossa memória reconhecedora, como Pump it do Black Eye Peas em Pulp Fiction, Where Is My Mind do Pixies em Clube da Luta e Stayin’ Alive do Bee Gees, que não demora muito a nos fazer lembrar de Embalos de Sábado a Noite. “Você provou ser um herói de verdade e um ser humano de verdade…”, diz I Need a Hero, do College. Além da sonoridade nostálgica dos anos 80, a canção diz muito sobre o driver e a leveza de seu alter ego obscuro, que concretiza a transição entre o herói americano esperado e o ser humano real e solúvel.

Drive teve potencial para ter sido consagrado como o melhor filme de 2011, competindo diretamente com os indicados ao Oscar. Sem contar a atuação lisérgica de Gosling, a melhor de sua carreira até agora. Sim, a empreitada pelo amor de uma mulher e pela sobrevivência como piloto-fora-da- lei lhe rendeu uma atuação muito mais profissional — além de fetichista — do que o papel que o levou a indicação do Oscar de Melhor Ator desse ano pelo idealista político em Tudo Pelo Poder.

A maior parte das críticas que foram feitas sobre Drive o caracterizaram como um filme de ação; mas isso ele não é. Sim, envolve perseguições automobilísticas, cenas de ação e violência. Mas não é essa a essência do longa. O enredo gira em torno da ‘desromantização’ da ideia do ‘fazer tudo por amor’ e mostra a insustentabilidade da moral quando se é posto no fogo. Quem alugar o filme esperando uma espécie de Velozes e Furiosos, vai se surpreender.

A metafísica do ônibus

2012/09/02

Gabriela Pincinato (Junho, 2012)

Pagar três reais para a viagem da casa pro trabalho, do trabalho pra casa, da casa pra faculdade, daqui ali, não lhe proporciona um percurso simples e trivial. O ônibus é um transporte metafísico. Diferente do táxi, por exemplo; nesse, é você e o cara que dirige; ele pode tomar algumas doses diárias de Prozac, falar sem parar, puxar assunto sobre a política, o tempo, o futebol; mas a interação é alí no banco, sentado, unilateral. Já o busão te leva além. São classes sociais de diferentes níveis abrigadas em um mesmo ambiente, com destinos diferentes, objetivos distintos, realidades opostas; muitas vezes, não compartilham só o banco, mas um mesmo apoio: seja ele um cano, uma alça pendurada, ou o próprio corpo. A velha que volta do mercado está para a advogada bem vestida, que está para o DJ do busão [ref. cit.: moleque que leva consigo um aparelho sonoro que reproduz ruídos altos, que popularmente chamam de música, cujas quais tratam de temas relacionados a sexo, bunda e outras partes do corpo humano], que está para a mocinha cult que leva sempre um livro a tiracolo. Todos unidos com um propósito, além do de chegar ao destino desejado: permanecer em pé e intacto.

Essa tarefa não é pra qualquer um, não. Quando se está num ônibus lotado, e o único lugar disponível para se segurar é a tal alça pendurada no cano, é preciso aplicar técnicas que são adquiridas ao longo de situações empíricas vivenciadas no dia-a-dia do usuário do transporte coletivo. Uma delas é esta: você dobra o joelho e coloca toda a foça no abdômen para se equilibrar meio a um mar de gente. A respiração deve ser controlada; por isso, procure uma janela aberta e tente manter o rosto em direção a ela. Enquanto isso, as pessoas sentadas estarão te olhando, com pena da situação, mas, ao mesmo tempo, desdenhando a dificuldade em que se encontra, torcendo para que você desmorone. No final, quando você estiver numa posição estranha, — que se equipara a uma tartaruga tentando sair do casco — controlando sempre a respiração, e se depara com uma situação harmoniosa quando atinge o ponto de equilíbrio pra não cair no chão, percebe que o que acabou de praticar alí não foi um simples ‘tentar não cair’. Como já dito, a metafísica do ônibus te abre um leque de possibilidades: desde a de conhecer conviver com espécies diferentes de gente [vide a situação clássica do DJ do busão], até a de praticar o pilates descrito acima.

A essência do macho alfa nas crônicas de Nelson Rodrigues e a síntese da dramaturgia no esporte

2012/09/02

Gabriela Pincinato (Junho, 2012)

Irreverente, obsceno, canalha. Associar tais adjetivos a Nelson Rodrigues não é trabalho difícil. O dramaturgo foi um dos poucos escritores brasileiros que conseguiram agregar a essência artística a tais aforismos. Dono de inteligência cotidiana, o escritor tecia seus textos encomendados pela revista Manchete Esportiva, na qual iniciou sua jornada como cronista esportivo, todas as semanas, entre os anos de 1955 e 1959.

Recentemente, a Editora Agir lançou o livro ‘O Berro Impresso das Manchetes’, uma antologia que reúne em suas 540 páginas todas as crônicas veiculadas na revista que possibilitou ao escritor o desenvolvimento de escrita até então não trabalhada por ele. Nesse contexto, durante o período do surgimento da Manchete e da decolagem de Nelson Rodrigues para um novo estilo literário, o futebol passava a ser, cada vez mais, motivo de mobilização nacional.

O nascimento do escritor em terras pernambuquenses não o tornou amante de clubes de Recife; mudando-se para o Rio de Janeiro ainda pequeno, descobriu o futebol carioca, os livros românticos do século XIX e a dramaturgia, tais quais se tornariam motivo e cerne de toda sua obra. Destilando as três paixões com intensidade de quem ama de verdade, a importante figura da literatura brasileira procurou, além de sintetizar cada olhar e coração de um torcedor esportivo, construir metáforas sobre a insustentável existência humana nos textos publicados na Manchete Esportiva, como a proposta de recortar características de enredos da vida masculina em ‘Perfil do Miserável’, um dos textos contidos na antologia.

Às crônicas futebolísticas ele empregava a essência do macho alfa: palavrões, expressões sujas e obscenas, tal como podemos ver em ‘Conveniência de ser covarde’ (1956). “Cada nome feio que a vida extrai de nós é um estímulo vital irresistível”. E o velho tinha razão. Assistir a um clássico paulista, por exemplo, como Corinthians x São Paulo, sem poder encher o peito e amaldiçoar a vida do árbitro, do goleiro adversário que agarra a bola no canto da trave e do atacante que perde o gol na melhor chance da partida é uma afronta à virilidade.

Nelson, exímio torcedor fiel do Fluminense enquanto viveu, traduzia a tragédia e a graça da realidade do futebol brasileiro, que ora lhe arrancava orgulho do peito, ora provocava martírios no coração de um torcedor angustiado por eventual derrota. No entanto, lhe era notório a capacidade de extrair fé de tais derrotas, que, segundo ele, eram o baluarte do clube. “(…) há outros fatores empurrando o Fluminense. Um deles é a mediocridade, que caracteriza o time. E sejamos justos: – existe nos homens e nos quadros medíocres uma força específica terrível. (…) Essa constância na mediocridade é que lhe dá uma grandeza inexcedível e talvez o faça campeão.” (O Martírio – 1956)

Em ‘Meu personagem da semana: Didi’, o cronista sugere um panorama que talvez traduza toda a essência de seu estilo literário: “É uma boa ideia [aquela sugerida pelo fundador da revista, de escolher um personagem para cada crítica da semana] e que tem a considerável vantagem de unir futebol e teatro. Para os bobos, não existe a menor relação entre uma coisa e outra. Ilusão. Existe, sim. O futebol vive dos seus instantes dramáticos, e um jogo só adquire grandeza quando oferece uma teatralidade autêntica”. Em uma época ainda devancadora e romântica do jornalismo, a descrição de cada partida se tornava uma peça literária de Nelson Rodrigues; o escritor adicionava a cada crônica aspectos melodramáticos e folhetinescos.  Tudo isso sem grau de contensão. Afinal, sua perpetuidade na literatura se deu por conta de seus excessos no desenvolvimento de aspectos triviais do esporta e da vida corriqueira a níveis dramatúrgicos e satíricos, explorando o humor suburbano da realidade carioca.