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paixões perigosas

2010/08/29

Nelson Motta – O Estado de S.Paulo

Não é só nas novelas que a paixão cega, ensurdece, escurece a mente e embota a inteligência. Ela nos leva a fazer o inconcebível, a aceitar o inaceitável, a esquecer o inesquecível. Como em um transe, uma possessão, ela se incorpora e comanda, atropela a ética, a estética e as evidencias.

Paixão é droga pesada, que provoca êxtase e dependência, é insaciável, e sua falta produz desespero, vazio e dor. Mas sem paixão, dizia Nelson Rodrigues, não se pode nem chupar um Chicabon.

É impossível imaginar grandes conquistas pessoais e coletivas sem paixão, sem entrega. É ela que nos move além do instinto, da razão e de nós mesmos. Fora as carnais, que são hors concours, as paixões mais perigosas parecem ser as políticas, esportivas e religiosas.

É fascinante, e assustador, ver pessoas educadas e delicadas se transformando em bestas boçais cuspindo fogo e soltando coices verbais por um jogo de futebol. Filmados, não se reconheceriam. Reconhecidos, se vexariam. Mas é mais forte do que eles.

Na faculdade, já achava meio ridículos os debates acalorados nas assembleias estudantis, movidos a slogans, palavras de ordem, acusações, bravatas e ameaças. E não raro, força bruta e intimidação. Nobres e pobres paixões juvenis.

Hoje, ler os comentários de leitores nos blogs é chafurdar no que há de mais estúpido na paixão política, e pior, partidária. Pelo seu potencial destruidor, por emburrecer os inteligentes, fortalecer os intolerantes, afastar os diferentes, entorpecer a razão, inviabilizar qualquer convivência.

É a paixão desses militantes sinceros e radicais, de qualquer partido, coitados, que serve de massa de manobra para políticos apaixonados – não pelo País ou a cidade – mas pelo poder, e por eles mesmos.

Como equilibrar a paixão necessária com a razão e a serenidade indispensáveis para viver e crescer em liberdade? Paixões são indomáveis e incontroláveis, delas nascem as piores formas de servidão. Nos resta esperar o lançamento de um Super Paixoneitor Control Tabajara, e não perder a novela Passione, uma aula sobre os estragos que ela provoca.

4 Comentários leave one →
  1. 2010/09/21 6:56 pm

    É impossível tentar ou pensar em se viver bem, sem Paixão. Concordo com o autor do texto quando ele diz que é preciso paixão. Mas acredito que a partir do momento em que a Razão, passa a adentrar os campos desconhecidos da Paixão; a coisa pode deixar de ser forte e natural e passar a ser algo premeditado e controlado.

    Acredito que seja necessário ter Paixão pra viver, mas desde que saibamos até onde essa tal Paixão pode nos levar não pelas rédeas dela, a Paixão e sim pelas rédeas do acaso, simples acaso. De tudo. De todos. E das coisas.

    Gostei do layout do Blog. Parabéns!

  2. 2010/12/15 12:06 am

    O seu blog está tão bonito assim – ainda mais com a neve caindo. Pena que anda abandonado!

  3. 2011/02/16 12:56 pm

    Movimentação no layout e no nome do blog significaria um possível retorno? Diz que sim? Diz que sim!

  4. 2011/02/18 10:48 am

    hahaha, talvez.
    to pensando em outro nome ainda, to meio no osso da criatividade.

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